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Autoconhecimento

A Possibilidade de Transformação

Como acontece a grande transformação em nossas vidas?

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“Enquanto todo mundo espera a cura do mal

E a loucura finge que tudo isso é normal

Eu finjo ter paciência.”

Lenine

A maioria das pessoas passará pela vida sem aspirar grandes mudanças! A vida contemporânea para parte da população mundial é regada com confortos e nosso “eu” prefere a vida assim, sem grandes esforços, sem ser necessário romper os limites.

O cérebro se desenvolve dentro de rotinas que são de fato bem saudáveis, mantendo o nível de estresse e ansiedade dentro do funcionamento básico. Comer, sair da cama, mudar de posição na cadeira, ir ao banheiro, pedir uma informação, buscar por trabalho, escrever, fazer contas, tudo funciona às mil maravilhas. Gera-se assim movimento, o que precisa ser sanado é sanado, a ansiedade abaixa, então, está lá de novo a necessidade, de novo a ansiedade aumenta ali um pouquinho e lá vai girando a roda do cotidiano. Infelizmente, para alguns desafortunados a história não para por aí.

No caso de algumas pessoas, amaldiçoadas criaturas, a escolha por sanar uma necessidade e um simples querer não ocorre bonito como venho descrevendo, não é bem assim. Parece que o mundo de fora, a sequência de acontecimentos, os outros, a estatística, rompe com a escolha, não há escolher.

Com relação ao mundo interno não é muito diferente! Surgem impulsos, pesadelos, imagens, cadeias de pensamentos que fazem com que a força da vontade, a intenção de liberdade vá para o espaço. Diante dessas forças que atuam, desses campos em que entram, resta somente nessas pessoas um “euzinho”.

Existe um conjunto de coisas, ou algo que força, que escolhe, por assim dizer, por essas pessoas, e lógico, o sentimento de pequenez, de impotência, de vergonha, de medo, de terror é presente. Assim, a ansiedade aumenta de nível, chega a patamares que extrapolam o básico. Surgem necessidades excessivas, dentro e fora, aliás, dentro e fora começa a ser relativo, a morte, tornasse uma necessidade de vida.

Quando não resta mais forças e não há como disfarçar, muitos amaldiçoados descobrem dois caminhos que podem abrandar o sofrer. Há um caminho antigo, tendo aí uns dez mil anos, e outro um tanto novo, que existe há uns duzentos anos.

  1. O antigo é a comunidade que se reúne e vive num dogma, sob um regimento de palavras, sob uma verdade, permeada por símbolos coletivos. Pode ser, por exemplo, uma comunidade onde a culpa e o sofrimento fica por conta de um barbudo que morre eternamente pregado numa cruz. Dissolver as demandas individuais em demandas coletivas funciona, apazigua, somos levados por forças já estabelecidas, dentro de um bem comum, it’s very good.
  2. O caminho mais novo é tipo jogar a sujeira para baixo do tapete. Ela fica ali, mas ninguém vê: é a medicina alopática. Nada contra remédios alopáticos, uma tala ou um gesso para uma torção ou fratura é o que há, porém se ficar demais no corpo passa a ser algo nocivo. No caminho novo tomam-se pílulas mágicas da felicidade, it’s very nice.

 

A transformação

Bom, há pessoas que, além de amaldiçoadas, faltam parafusos na cabeça e sobram comichões na alma, que não têm medo de dançar. Essa gente não pega nenhum dos dois caminhos: resolvem que vão olhar de frente esse algo maior que as tomou e sacudiu suas vidas, entregam-se de coração à dor. Entram no reino da água espertas, com o Makara, não querem ser engolidas.

Aqui começa de fato uma vivência religiosa. Uma das origens da palavra religião, entre outras, é a religare, algo muito parecido com a noção católica, de se restabelecer numa ligação com a graça divina, afastando-se do mal. No que vos digo, a origem que cabe é o religere, algo mais próximo da antiga alquimia chinesa. É o olhar com zelo, com cuidado para, observar, participar. Nesse caso, olhar com zelo e cuidado para o que aterrorizou, para o que tirou o chão, o que tomou a vida, observar e participar do numinoso.

A partir do momento que começam a zelar por esse algo maior, esse algo que se vive no coletivo, mas que ao mesmo tempo é único de cada um, nesse momento, essas pessoas já não são mais as mesmas. Tem-se início a transformação.

Rosie Kerr – Paint St. Louis 2017

Viver torna-se um fluxo, como uma criança brincando. O tempo, a brincadeira, a criança, o local, o momento, torna-se tudo uma coisa só, ficando difícil diferenciar distração de atenção, percepção de criação. O que antes era maldição e dor, torna-se plenitude e estar na vida, o básico torna-se extraordinário e o ordinário enche-se de mistério. O mal se revela uma ponte para a tomada de consciência.

Numa conversa um monge comentou com um padre:

– para não dizer que é trágica, é engraçada sua religião.

O Padre responde:

– Mas por quê?

O monge:

– O animal engana a mulher; a mulher engana o homem; Deus briga com o animal, briga com a mulher, briga com o homem; o homem briga com a mulher e com Deus. Que novela!

O padre encafifado indaga:

– É como é na sua?

A reposta:

– Na minha a gente dança!

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Rodrigo Pereira Ceccon

Pai, poeta, empresário, escritor, pesquisador e livre diletante. Sempre caminhando, com os olhos no mar e a cabeça nas nuvens.

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