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Ética: consequência da Inteligência Emocional?

Saiba como praticar o autocontrole, através de reflexões, leituras e experimentos.

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Este artigo sobre ética e inteligência emocional, foi concedido pelo nosso parceiro Mathias Luz!


Conversar sobre ética pode ser algo bem complexo. Imagine, então, se a associarmos à inteligência emocional o quão mais pode ficar?

De fato, não consigo me lembrar de uma discussão sobre esses temas que não se perdesse em um jogo retórico.

Muito menos, de algum debate que levasse a um acordo sobre uma conduta universal que sirva de base para o bem-estar de todos.

Sem falar dos em que as pessoas partem de premissas culturais, geográficas, sociais, psicológicas, étnicas, religiosas (e etc) opostas, sem estarem conscientes disso, gerando impasses e a sensação de impotência de que estamos diante de uma questão irresolúvel e infindável.

Dado esse contexto, já tinha até perdido a esperança de encontrar algum diálogo construtivo nessa esfera.

Para a minha surpresa – entretanto – ao ler o livro Uma Ética para o Novo Milênio do Dalai Lama e participar de uma roda de discussão de Comunicação Não-Violenta conduzida pelo Dominic Barter, senti-me reanimado para levantar o seguinte questionamento:

 

Seria a Ética uma consequência da Inteligência Emocional?

É essa hipótese que gostaria de explorar nesse texto, de um ponto de vista mais pragmático, tendo o livro e o curso citados, além do livro de CNV como pano de fundo da nossa conversa.

Leia-se ética ≠ moral neste contexto.

Etica = conduta universal para o bem-estar geral.

Moral = conduta condicionada a uma cultura/costume/tradição.

 

O Bem-estar Intrapessoal x Emoções Negativas

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Possuído pela Raiva por StefanoG.com

O autor tibetano sustenta ao longo de toda a leitura – através de anedotas, metáforas, comparações, dados e suas experiências –  a necessidade de se disciplinar o pensamento, isto é, de se desenvolver autocontrole – que, segundo Daniel Goleman, é uma componente da inteligência emocional – para se praticar a ética.

Nessa linha, explorei essa tese a partir de diferentes perspectivas.

Uma delas é que ele estabelece uma relação direta e proporcional entre a ética e o bem-estar intrapessoal ou individual.

Para isso, ele cita o exemplo de que na medicina tibetana – e outras abordagens que consideram o ser humano de forma holística –  a raiva é considerada causa de doenças degenerativas e crônicas como pressão alta e insônia.

Nesse contexto, saber lidar com as emoções negativas ganha muita importância, pois o descontrole sobre elas representa um risco para nossa própria saúde.

Em seguida, conta uma história pessoal:

Quando jovem, tinha o sonho de aprender a dirigir, mas custava a encontrar alguém que o ensinasse no seu povo.

Continuando minha busca, encontrei um rapaz que realmente entendia do assunto finalmente.

Certo dia, esse rapaz estava fazendo uns reparos no motor do carro e, acidentalmente, o capô fechou sobre sua cabeça. Embevecido em raiva, começou a praguejar e atirar blasfêmias para tudo que era lado.

Ao invés de buscar se recompor, o homem, em um acesso súbito de cólera, golpeou de novo sua cabeça novamente contra o capô – agora por vontade própria.

Resultado: Ficou com o saldo negativo de 2 galos na cabeça, ao invés de 1.

Assim, ele arremata o racional da importância da inteligência emocional no nosso bem estar.

Isso, porque sem o autocontrole – que no exemplo acima engloba capacidade de se discernir entre uma gratificação imediata e um benefício mais duradouro –  as chances de se tomar uma decisão nociva para si mesmo são maiores.

 

O Bem-estar Interpessoal x Emoções Negativas

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Discussão por Raul Lieberwirth

Outro ângulo que o autor nos oferece para relacionar autocontrole com ética, é o de que a falta de autocontrole tem impacto nos nossos relacionamentos.

Como exemplo, ele cita que o ímpeto de se proteger ou de se impor a alguém  diante de um conflito de qualquer natureza (uma discussão, por exemplo)  na maioria das vezes acarreta resultados indesejáveis em termos do bem-estar das partes, porque relacionamentos importantes podem ser colocados em risco a partir do nosso descontrole emocional.

(Segundo a abordagem da CNV, um estímulo para provavelmente esconde uma necessidade não atendida –  insegurança, por exemplo – mas isso já é outro tema.)

Na intenção de esclarecer mais ainda o ponto, o Dalai nos convida para a seguinte reflexão:

“Não é necessário muito esforço para se reportar a uma ocasião no passado, em que discutimos com alguém que amamos e acabamos usando palavras ríspidas, machucando-o e gerando desgaste na relação.”

Não seria o arrependimento que geralmente acontece depois de que a “poeira baixa”, um sinal de que não agimos de forma ética?

Dalai Lama, em Uma Ética para o Novo Milênio

Portanto, pelo prisma dos relacionamentos interpessoais, também ele associa estabelece de forma interessante essa relação inteligência emocional x ética.

Uma pergunta que nos podemos fazer nesse cenário é a seguinte:

 

Então, somente as Emoções Positivas podem gerar Condutas Éticas?

Não exatamente, segundo o autor.

Quem nunca, em um momento de medo (emoção negativa), canalizou automaticamente a adrenalina para se proteger ou proteger alguém de algum perigo (ação ética)?

Ou então, imagine que você é pai ou mãe e seu filho de 5 anos se solta da sua mão e corre para o meio de uma rua bastante movimentada.

Você vê que ele corre risco de vida, porque está vindo um caminhão em alta velocidade.

Não seria urgente correr, puxá-lo ou empurrá-lo com o máximo de violência (emoção negativa) para fora da rua, mesmo que isso custe a ele alguns machucados para salvar sua vida (ação ética)?

Dito isso, fica claro que o ponto do autor não é necessariamente buscar positividade em todos os momentos.

Em lugar,  defende a necessidade de se desenvolver inteligência emocional suficiente para se avaliar se uma reação — seja ela desencadeada por emoções negativas ou positivas — vai trazer mais benefícios que prejuízos no panorama de médio/longo prazo.

 

Como fazer isso sem reprimir Emoções & Sentimentos?

Vulcão Santa Maria em Erupção porDave Wilson

Vulcão Santa Maria em Erupção por Dave Wilson

Talvez essa ideia esteja passando na sua tela mental.

Como dominar emoções sem gerar repressão de modo a ensaiar os primeiros passos em autocontrole, nessa inteligência emocional e assim atingir uma conduta ética?

Seria isso possível?

Sim! Mas primeiro (como diria o personagem “O Máscara” do Jim Carrey rsrs), há que se definir bem o que é a tal da “repressão”.

Isso, porque o Dalai comenta que pode haver confusão entre os termos “repressão” e “contenção” em se tratando de emoções.

Para lançar uma luz sobre essa mistura de significados, o Dalai coloca as define da seguinte forma:

Contenção: Capacidade de se avaliar previamente as vantagens e desvantagens de se agir de um modo ou outro, tendo-se em vista o bem-estar geral e de longo prazo diante de um estímulo.

Repressão: Capacidade de simular autocontrole por receio ou medo de julgamentos de externos (certo/errado, adequado/inadequado e etc).

Em outras palavras, o caminho para a inteligência emocional é a contenção – sö pa em tibetano) e não a repressão.

Diga-se de passagem que é super inteligente se evitar a repressão, porque o acúmulo de rancor, raiva e ressentimentos de qualquer natureza tendem a desviar o foco do exercício do autocontrole, da inteligência emocional e, portanto, da ética – justamente o oposto da proposta do autor.

Definições clareadas, agora vamos ao “como” de fato.

 

Experimentos em Inteligência Emocional

Experimentos por Buffer

Experimentos por Buffer

Estou convencido de que as sugestões abaixo já são velhas conhecidas suas.

Logo, servem muito mais como lembretes do que “segredos revelados”.

Apesar disso, você há de convir que enquanto não incorporarmos as 3 camadas do desenvolvimento de qualquer competência (o “saber”, o “saber fazer” e o “querer fazer”) esses lembretes continuam sendo importantes, seja de qualquer coisa que queremos aprender na vida.

Então, nesse sentido, é muito importante se adotar uma mentalidade de teste e de curiosidade para se realizar alguns experimentos até que o conhecimento (o “saber”), a habilidade (o “saber fazer”) e a atitude o (“querer fazer”) se cristalizem enquanto hábito e, assim, a inteligência emocional seja conquistada.

Para isso, vou compartilhar contigo 4 propostas de experimentos com a intenção de que aprofundes sua busca nesse tema.

 

Experimento#1: Pise no freio

O primeiro passo para a construção da ética é a conter as emoções e pensamentos negativos.

Autocontrole por Jose Vicente Ribas

Autocontrole por Jose Vicente Ribas

Chico Xavier — grande filantropo brasileiro e escritor do século XX — exemplifica muito bem esse experimento.

Recomendado por sua mãe, toda vez que sentia raiva de algo ou alguém, ele enchia a boca de água para evitar falar “bobagens” até o ímpeto passar.

Já o Dalai Lama, usa a técnica de “dar uma volta” para espairar  e respirar 20 vezes antes de responder a algum estímulo que o tira de si.

Para o sucesso desse experimento, é crucial se lembrar do longo prazo!

Que tal pensar nas consequências que podem ser muito piores se você não controlar seus ímpetos?

Uma mágoa que pode se arrasta pela vida, um relacionamento não resolvido,  um rancor entalado no peito, a falta de um perdão que consome a alma, a quebra de um elo de confiança valioso e por aí vai…

Será que não vale a pena investir bem nesse músculo da inteligência emocional mesmo?

 

Experimento#2: Mude a Perspectiva

Que tal se pensar na adversidade não como algo ruim, mas como um caminho para se desenvolver autocontrole?

Diferentes Perspectivas por Damianos Chronakis

Diferentes Perspectivas por Damianos Chronakis

Segundo essa ótica, a gente passa a pensar nas “pessoas que nos irritam” como as melhores professoras de inteligência emocional do mundo — e o melhor, sem precisar pagar nada por isso!

Esses super professores são o estímulo perfeito para aquilo que não se aprende simplesmente lendo esse post.

Esse experimento aqui é mais uma tentativa de olhar a realidade de outra forma, isto é, de recontextualizá-la ou ressignificá-la.

Através desse experimento, você pode simplesmente combinar as técnicas do experimento#1 e dos que ainda virão.

 

Experimento#3: Continue curioso(a)

Que tal deixar de lado suposições e fazer mais check-ups para entender se o que você escutou foi o mesmo que o interlocutor quis dizer?

Curiosidade por Premnath Thirumalaisamy

Curiosidade por Premnath Thirumalaisamy

Sim, estou falando de perguntas que buscam evidenciar o comportamento que geraram um determinado impacto que você observou no interlocultor.

Elas são ótimas para retirar o foco do “mimimi” e colocá-lo no entendimento do problema, que tende a dissolvê-lo por tabela, quando ele existe de fato. (Quantas vezes a gente se deu conta de que o problema não era um” problema”? )

Imagine a seguinte situação para entendermos como fazer essas perguntas que descascam as “cebolas dos problemas”:

Suponhamos que você acabou de dar uma palestra sobre um assunto do seu interesse e no momento em que você abre para perguntas, uma pessoa levanta a mão e fala:

“Você é o palestrante mais arrogante que já vi!”

O que você faria nesse momento?

Bom, vamos estudar algumas opções para quando lhe dirigem dessa maneira:

  1. Levar a mensagem a mal e atacar a outra pessoa.
  2. Ficar na defensiva e arranjar desculpas.
  3. Continuar curioso para entender o que poderia estar por trás da afirmação da pessoa.

Assumindo a opção 3 (a mais desafiadora de todas), olha como a situação pode se desdobrar ao utilizar a comunicação não-violenta como técnica de inteligência emocional:

Você: Será que você está reagindo (impacto) por eu ter demorado trinta minutos corridos (comportamento) para apresentar minhas idéias até vocês terem tido chance de falar (situação)?

Pessoa: Não! Falando, você faz tudo parecer simples demais!

Você (continuando curioso): Você está reagindo (impacto) por eu não ter dito nada sobre como, para algumas pessoas, pode ser difícil por o processo em prática (comportamento)?

Pessoa: Não, não para algumas pessoas — para você!

Você (continuando curioso): Então você está reagindo (impacto) por eu não ter dito que o processo às vezes pode ser difícil para mim mesmo (comportamento)? 

Pessoa: Isso mesmo.

Você (continuando curioso e parafraseando): Você está aborrecido(impacto) porque você teria apreciado algum tipo de sinal de minha parte que indicasse que eu mesmo tenho alguns problemas com o processo (comportamento)?

Pessoa (depois de uma pequena pausa): É isso mesmo…

Você (agora mais relaxado, porque descobriu a causa raiz do conflito):Você gostaria que eu reconhecesse agora mesmo que esse processo pode ser difícil para eu mesmo colocar em prática?

Pessoa: Sim.

A partir daí, o problema deixou de existir!
Portanto, que tal experimentar o “continuar curioso”?

 

Experimento#4 : Separe o Agente da Ação

Quando cometemos algum “erro”, relevamos o fato com muito mais facilidade do que quando outra pessoa o comete, não é verdade?

Teto da Capela da Sistina por Tom Blackwell

Teto da Capela da Sistina por Tom Blackwell

Por que será que isso acontece?

O Dalai afirma que é simplesmente porque você sabe que vai continuar sendo uma “pessoa boa” que apenas cometeu um “erro” passageiro.

Então, por que não se colocar no lugar do outro e relevar quando fizerem algo “errado” para nós – já que elas continuam sendo “pessoas boas” também?

Explorando outra faceta dessa idéia, imagine, agora, algo que te tira realmente do sério…

Imagine que você fez exatamente o que te tira do seu “estado padrão” para uma pessoa qualquer.

Pergunta: você se torna seu próprio inimigo se fizer isso para um terceiro? (pode ter ficado meio confusa a pergunta, mas continue lendo para entender o ponto…)

Você cristaliza essa ação “ruim” como parte da sua identidade e personalidade?

Se respondeu “não” – que é o que espero nesse momento -, então por que tendemos a desenvolver antipatias ou inimizades quando fazem algo semelhante para nós?

Nunca conheceu alguém por quem sentia antipatia a priori, mas que acabou se tornando um bom amigo(a) depois de lhe conhecer um pouco mais?

Todos esses questionamento convergem para a seguinte premissa:

Agente e ação possuem natureza distinta e devem ser tratados como tal, se o objetivo é se adotar uma conduta ética.

Logo, não faz sentido se ter ódio (ou qualquer sentimento negativo) por alguém, mas sim pela ação que ela realizou.

Dalai Lama, em Uma Ética para o Novo Milênio

Uma ressalva importante:

Uso o bom senso! Se sua integridade estiver em jogo, melhor esperar outra situação para fazer o experimento e concentrar as energias para cuidar de si!

De toda forma, o grande intuito desses experimentos é se aproveitar o que status quo considera como adversidades com muito mais inteligência emocional,  base fundamental para a ética.

 

Reflexão Final

No controle por Massimo Valiani

No controle por Massimo Valiani

Finalizando a reflexão que o livro e o curso me trouxeram, para mim ficou bastante nítida a ideia de que a ética (comportamentos que visam o bem-estar coletivo – que inclui o bem-estar individual –  no longo prazo) guarda uma relação direta com o autocontrole, que, por sua vez, é um elemento de inteligência emocional.

Isso, porque sem o autocontrole, perdemos de vista o impacto que uma simples reação reverbera em nosso bem-estar e das pessoas ao nosso redor no longo prazo.

Sem essa visão sistêmica, tendemos a fazer julgamentos mais pobres em termos do que realmente preenche novas vidas de forma duradoura.

Assim, se o objetivo é o bem-estar intrapessoal e interpessoal, faz total sentido se desenvolver competências de inteligência emocional como autocontrole – conforme sugerido pelo Dalai.

Por tabela, discutir sobre ética se torna algo mais pragmático (adoro pragmatismo!)

Afinal das contas, no fim do dia todo mundo só quer é ser feliz e evitar sofrimentos!

Concorda?  Se não, por que?

Por que não continuamos a nossa conversa nos comentários então?

Ps.: Deixo claro que estou em busca de desenvolver essa competência também. Não sou guru ou especialista, sou estudante. Busco desenvolver meus próprios manuais e compartilhá-los apenas.

Recursos

  1. Uma ética para o Novo Milênio por Dalai Lama. #livros
  2. Comunicação não-violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais por Marshall Rosenberg. #livros
  3. Roda de CNV com Dominic Barter #workshops
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Mathias Luz

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