Parte 1 – Constante Desconhecido

“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.”

Milan Kundera

Você já mudou de apartamento?

Quando nos embalamos para transporte, alocamos vários pertences pessoais no caminhão de um desconhecido e nos despedimos de tudo que é rotineiro para dar um novo nome ao nosso endereço, o que estamos fazendo?

A mudança é parte constante da nossa vida e da vida de todos ao nosso redor. A mudança é uma constante também em criaturas isentas de vida ciente, em objetos inanimados e, inclusive, em substâncias químicas inocentes a todos esses conceitos.

A mudança é física, é parte das leis que governam nosso Universo. Ora, a mudança é o Universo. É como tudo começou e é para onde vai.

E a gente aqui, tentando ficar parados e seguros..

Os seres humanos estão aprendendo a viver enquanto vivem. Dessa forma, podemos imaginarmo-nos como uma legião de pessoas cegas tentando trilhar um caminho dentro de uma floresta desconhecida. O que é o certo a ser feito? O que é ser responsável, respeitoso, ter um futuro, dar certo, ter estabilidade emocional, ser emocionalmente responsável, etc.?

Qual o caminho que eu quero trilhar? Quando não conhecemos nenhum caminho, é difícil de dizer mesmo.

Claro que podemos aprender uns com os outros, estamos todos o tempo esbarrando uns nos outros. Uns tentam nos ajudar, outros nos atrapalhar… Outras pessoas, inclusive, bem intencionadas nos prejudicam, e vice-versa (por mais incrível que pareça).

Todo mundo vai chegar a algum lugar, considerando que não existe um único caminho romântico e correto para a vida de ninguém.

Mas convenhamos, quanto mais tempo tateando no escuro, mais percebemos que o escuro é denso e extenso. Quanto mais vivemos e temos uma perspectiva maior de passado, mais memórias absorvemos do que é “estar vivo”, e melhor compreendemos a complexidade abismal do que chamamos de vida. Conseguimos, portanto, vislumbrar assustados os possíveis desafios futuros com mais detalhes.

Quando somos criança, não temos um padrão de comparação, então é mais fácil de criar perigosos medos irracionais e também mais fácil de ser otimista frente aos lados bons e divertidos da vida.

Mas a medida que nos tornamos mais velhos e deixamos escapar a inocência pelos dedos, algumas verdades se apresentam mais cruas e diretas. Já sentimos uma grande parte de diversos tons de sentimentos bons e ruins, já entendemos melhor o bolo emocional que compõe o caminho. Aí paramos, olhamos pra frente e entendemos: ainda tem muito desse chão todo para andar.

 

Parte 2 – O medo da mudança

“O pessimista e o tímido são os caras que conseguem sempre acreditar que a pior hipótese vai acontecer”

Meu pai

Sinto que grande parte do medo de mudança que as pessoas têm vem disso: o medo do futuro e de todas as suas possibilidades.

Quando estamos no escuro da floresta-vida, cansados de bater o calcanhar em tudo que é pedra, de talvez sermos enganados por outros andarilhos ou de cairmos em buracos e armadilhas, depois desse tempo existe uma tendência em seguirmos só por onde temos certeza que tem chão firme. Os caminhos conhecidos e já planos de tanta colisão com nossos pés.

A ilusão de segurança vem da noção de que se nunca tentarmos nada novo, as coisas boas ainda vão acontecer enquanto todas as coisas ruins serão evitadas. Mas o que esquecemos é daquilo: a mudança rege nosso Universo. Lutar contra ela é uma das lutas mais ingratas que existem.

Não dá para permanecer o mesmo em um mundo que muda o tempo todo. Não dá para permanecer o mesmo em um corpo que constantemente se transforma. Não dá para permanecer o mesmo quando estamos em um processo de expiração, inspiração, expiração, inspiração, e assim por diante, e diante e diante, sem nunca parar. Aqui, ali, indo, voltando. Muda quem passa, mudam os interesses, muda o ambiente, muda você, mudo eu. Mudanças, mudanças, mudanças. Pausa. Mas continua.

Tendo em vista que tudo muda, muda também aquilo que nos faz feliz, mudam os tipos de assuntos queremos falar e o tipo de pessoas que queremos ouvir. Muda por quem arriscamos nos apaixonar, mudam os lugares que queremos conhecer, as comidas que queremos provar e as comidas que queremos fazer. É natural, é o fluxo das coisas.

Mas se o medo de se movimentar nos paralisa, se pensarmos sempre pelo ponto de vista do pior que pode acontecer e como podemos nos prejudicar, aciona-se automaticamente o instinto da autopreservação. Corremos para a caverna, apagam-se as tochas. Silêncio, escuro, “seguro”.

Lutamos contra a corrente, mas que tipo de dores esse atrito pode causar?

Porque mesmo parados, a corrente continua.

A ironia é que o medo de mudar não nos impede de mudar.

Às vezes ficamos tanto tempo com medo de nos permitir mudar, que começamos a ficar confusos com a imagem pessoal que temos de nós mesmos. Se eu não gosto mais do que eu gostava antes, do que eu gosto então? O que eu quero fazer? O que me deixa feliz?

Quem diabos sou eu?

Quanto mais tempo ficamos com medo de andar na floresta que nos embala, menos conhecemos quem está por baixo da pele que vestimos.

 

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E aí levamos todas as caixas pra casa nova. E quem mora nessa casa é a mesma pessoa que morava na casa antiga? Ás vezes quando criamos coragem e conseguimos dar mais alguns passos no escuro, percebemos que aquele lugar tão assustador na verdade é tranquilo de se andar. Que aquela direção tão imprevisível na verdade pode até ser interpretada. E mesmo quando o caminho não é confortável, pode nos dar alguns presentes inesperados. Mas principalmente: para qualquer direção que criamos pernas, todo caminho é para dentro. É sobre como vemos o mundo, como enxergamos nossas decisões e como vislumbramos o risco de estarmos vivos. E indo pra todos cantos, acabamos nos encontrando mais com nós mesmos.

Olá, eu do eu mesmo.

 

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Monge Han

Designer, Ilustrador e aspirante Músico, Escritor e Tatuador de Curitiba. Em sua página “Monge Han” compartilha trabalhos sobre sua jornada de desenvolvimento e auto conhecimento pessoal através da arte. Também é parceiro na casa cultural Das Nuvens e se interessa por pesquisa na área de Educação de Design.

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